terça-feira, 6 de setembro de 2016

6 de setembro de 2016

Chove lá fora e só consigo pensar nos maiores clichês sentimentais de que se tem conhecimento. Nos últimos tempos a vida tem sido um grande rebuliço e cada dia que começa reserva algo que não consigo prever: o tédio de um domingo de ressaca ou a agitação de uma terça-feira que começou despretensiosa.
O mundo despenca em aguaceiro do lado de fora e eu queria mesmo poder sentir seus pés, saber se eles são quentes o suficiente para amenizar o frio dos meus, enquanto escuto sobre sua vida, os caminhos pelos quais já passou e fito seus olhos cheia de curiosidade de te descobrir.
As gotas estralam na janela enquanto fico aqui tentando adivinhar se um dia os meus desejos se tornarão reais ou se será preciso implorar ao cosmo, enquanto fecho os olhos, beijo uma moeda e atiro na fonte dos desejos. Olhando no reflexo da água, já não sei mais se os desejos contidos nela são maiores que os meus. Aparentemente tão rasa, realmente tão profunda...
O céu chora lá fora e aqui dentro vou continuar torcendo para que o rebuliço te faça perceber que eu estou aqui para irmos de mãos dadas por ai.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

19 de agosto de 2016

Você me surpreende quando aparece e me deixa surpresa quando desaparece. Em mais uma noite comum, escolhe a roupa, pinta o rosto, disfarça as imperfeições e sai de casa. A noite corre tranquila, com passos de dança temperados com o suor do corpo. E sua presença salta, confessando o desejo e admitindo o momento inoportuno.
Dias depois a oportunidade plantada em um sábado cheio de intenções. A incerteza, a linguagem corporal, os olhares que dizem o que as bocas ocupadas não conseguem. E de repente estamos nós de novo, dentro de uma câmara fria com pedaços de mim pendurados em ganchos de carne.
A minha carne que sangra e me faz acordar de sonhos intranquilos durante madrugadas inquietas. E quando a ferida estancada, novamente a porta se abre e a presença se faz. Materializada, carnal, com digitais que apalpam e marcam todos os pedaços do meu corpo que insiste em querer ser seu.
Mas você não perdura, porque sua timidez liberta te suga para dentro de si mesmo sem chances para o meu afeto que existe. E agora o quarto gélido que ainda assim me faz suar enquanto sonhos e pesadelos dominam o meu inconsciente. Sonhos e pesadelos que carimbam suas digitais mais fundas do que sua mente confusa e egoísta imagina. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

16 de agosto de 2016

Hoje o dia já começou um pouco mais pesado que o normal. A garganta arranhava por conta do início de um resfriado e a alma ardia num misto de sentimentos difíceis.
Desde fevereiro eu trabalho em um site de notícias. O Jornalismo, até então renegado como um filho bastardo, ocupou meus dias e noites, e passou a ser mais uma das coisas que me movem. Mas como tudo na vida, essa é uma profissão repleta de ônus e bônus, com diversas pitadas de surpresa.
Todos os dias eu acordo e não sei como vai ser o meu dia. Não faço ideia de quais notícias terei que escrever, com quais pessoas terei que falar, sobre quais assuntos terei que tratar. Como disse há algum tempo, fiz Letras e lidei por alguns anos com autores mortos, que sobrevivem em estantes empoeiradas; mas agora, resgatei o Jornalismo e lido diariamente com pessoas vivas, pulsantes, com energias que circulam e me afetam cotidianamente.
Mas nem por isso deixei de lidar com a morte. Ao contrário, talvez eu nunca tenha ficado tão próxima dela, e com a quase-obrigação de me manter firme diante de todo o espectro que ela carrega ao seu lado.
Hoje o dia começou um pouco mais pesado que o normal. Abri os olhos e fui checar as pautas que me esperavam, quando me deparei com a imagem de uma moça baleada no meio fio. A primeira coisa que reparei foi as pessoas em volta dela com uma naturalidade que me assustou, seguida pela segunda coisa que foi imaginar a pessoa ali, que sacou o celular do bolso e fez o registro. Preciso dizer que a morte nunca foi um assunto natural para mim. É preciso dizer que minhas condições sociais me afastaram de balas perdidas e de acordar com sangue respingado na parede. Portanto, ver a composição dessa cena mexe com todos os meus nervos e sentimentos.
A notícia era a seguinte: a moça, uma jovem de 22 anos, havia tentado assaltar um estabelecimento comercial com mais dois amigos em um bairro de Assis. A linguagem denuncia toda a falta de aproximação. A linguagem da "imparcialidade" de quem conta os fatos para que os outros saibam e a notícia circule. E eis o ponto: eu sabia que essa seria uma das notícias mais lidas do dia e, a depender da tranquilidade do resto da semana, ela repercutiria até a próxima grande tragédia.
As pessoas leram e comentaram coisas como "bem feito", "menos uma", "bandido bom é bandido morto", e mais uma infinidade de palavras que me arregalam os olhos. Além de toda a naturalidade já dita anteriormente, os discursos de ódio não possuem limites.
Hoje o dia começou um pouco mais pesado que o normal. Diariamente sou obrigada a conviver com casos parecidos e diariamente sou obrigada a lidar com a incredulidade. Os deuses do Jornalismo que me perdoem, mas ainda está para raiar o dia em que situações como essa não me abalem. Não posso me dar ao "luxo" de deixar de fazer o meu trabalho da melhor forma que eu puder, mas ninguém pode me impedir de sentir e me compadecer por uma moça tão jovem estirada no meio fio como se ela nada fosse. Ninguém pode me impedir de ser humana antes de ser jornalista; de ser otimista antes de ser jornalista; de ser alguém que tem diversas críticas sociais antes de ser jornalista. Enfim... ninguém pode me impedir.
Hoje o dia começou um pouco mais pesado que o normal e certamente isso vai ecoar, seja amanhã ou depois. Vou dormir pensando que, apesar dela também ter ameaçado a vida de outras pessoas, o trajeto para que ela chegasse até o fim da linha também foi ameaçador. Que nada nos impeça de sermos mais humanos, para quem sabe a gente possa naturalizar cada vez menos a grande espetacularização da tragédia.

JORNAL DA MORTE

terça-feira, 9 de agosto de 2016

9 de agosto de 2016

Diariamente descubro pequenos tesouros dentro deste baú que sou eu mesma. Quando digo às pessoas sobre minhas características, de forma tão natural e espontânea, penso que não sei determinar ao certo qual foi o instante em que tais conclusões se tornaram minhas verdades.

Não sei precisar desde quando admiro impulsos repletos de espontaneidade e a coragem que é necessária para que eles rompam as barreiras desse espectro do "melhor não" que nos ronda.
Hoje deparei-me com o seguinte texto:

"Eu gosto do impulso. De palavras de ternura que são ditas do nada, fora de contexto. Gosto de abraço apertado não necessariamente na chegada ou na despedida. Gosto do brinde em dias banais. Gosto do sorriso de canto que só dá a pessoa que muito te compreende. Gosto de coisas sem hora marcada. Gosto do acaso que depois a gente diz que não poderia ser acaso, que era assim que era pra ser. Gosto da poesia que brota das pontas dos dedos e se escreve rápida e urgente. Gosto de quem manda mensagem três da manhã porque lembrou de alguma coisa terna. Gosto de quem não sabe conter a paixão. Eu gosto assim." - Ryane Leão (Onde jazz meu coração)

Ultimamente descobri em meu baú a importância de tudo que não parece importante. Toda uma geração que se diz libertária e ainda se preocupa com quem mandará a mensagem de bom dia no dia seguinte, pois não quer ser o primeiro a dar a cara a tapa e "parecer desesperado". Desespero mesmo é ficar sufocando gestos e palavras que poderiam arrancar sorrisos despretensiosos às 15h de uma quarta-feira qualquer. 

Aos poucos tenho tirado minhas armaduras e tido a coragem de assumir o desespero em aproveitar cada raro instante ao lado daqueles que transformam a minha vida. Quero ver o sorriso de vocês enquanto os meus olhos ainda estão arregalados e atentos às pequenas magias do dia-a-dia. Quero ser presença presente enquanto meu corpo ainda pode sentir o cheiro de chuva e o toque que arrepia. Quero poder acordar às 4h da manhã e mandar uma mensagem dizendo que sonhei com você. Só o que não quero é ter que afogar essa enxurrada de coisas que sinto porque um dia disseram que era prejudicial dizer bom dia no dia seguinte. 




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

3 de agosto de 2016

Em tempos de aparência parecer mais importante que essência, talvez tenhamos nos acostumado a não sermos honestos com as pessoas a nossa volta. Sempre em jogos onde não há vencedores, tentando fingir ser aquilo que não é (ou talvez seja), temos nos esquecido o quanto é importante dizer a elas o quanto são especiais, sem datas comemorativas ou pretextos. Não precisa disfarçar não. Tá liberado dizer que do fundo da sua alma ela é importante e que essa presença te arranca sorrisos. Os mais sinceros sorrisos. 

sábado, 5 de abril de 2014

05 de abril de 2014

Por algum motivo me vejo repetindo velhos hábitos que nunca levaram por bons caminhos. Talvez seja pela facilidade que temos em seguir a estrada já conhecida, esquecendo de todas as armadilhas que ela tem. Armadilhas que já estavam lá, sempre estiveram, mas que quando as feridas cicatrizam a nossa memória teima em falhar.
Deveria saber que o trajeto me espera com bons momentos, mas regados a constantes suspiros de exaustão. Depois de algumas experiências como esta, era  para se saber que o erro só muda de nome e endereço.
É um novo com gosto de passado, uma novidade com poeira de antiguidade. E a cada ano que começa, a cada ciclo que a gente começa, lá no fundo acreditamos que tudo vai recomeçar. E por mais consciência que possamos ter, o fato é que nada recomeça se não nos reinventarmos. Buscar maneiras novas de viver, mesmo que seja pelo mesmo caminho.
Tava afim de colher louros, lírios, lírica inspirada. Talvez seja hora de mudar as sementes enquanto há tempo, porque não dá mais para cultivar ilusões. O preço que se paga é alto e a colheita é das mais doloridas.


terça-feira, 2 de julho de 2013

2 de julho de 2013

Depois de certo tempo os combinados passam a ficar mais caros. Contrariam o ditado popular que asseguram os acordos. As promessas podem estar fixadas na parede, registradas em cartório, autenticadas e reconhecidas, mas cedo ou tarde são esquecidas e jogadas para debaixo do tapete.
Penso nisso com boas doses de inconformidade, acrescidas com pitadas de tristeza e mágoa. Tudo poderia ser mais simples se as pessoas assumissem suas responsabilidades. Essas, que muitas vezes não foram impostas, mas resultado de longas conversas até que se chegasse a uma solução.
No  meu mundo ideal ainda há espaço para o respeito. Fazer um esforço diário para tentar se colocar no lugar do outro e proporcionar o mínimo de uma relação agradável. Ao mesmo tempo, está cada vez mais claro ver que há uma dificuldade imensa nesse processo. O mundo fica o tempo todo martelando em nossa cabeça sobre a lei do mais forte, ou aplaudindo quem consegue se dar bem. E o sopro de respeito e consideração pelo outro vai ficando cada vez mais fraco... Diria que hoje sinto apenas uma leve brisa passando por aqui.
E eis a questão, porque viver é um esforço diário. Encarar tudo o que a vida implica dói, cansa, machuca... Mas porra, afinal não é isso? A gente acorda cedo, trabalha, convive, cuida da casa, dos filhos, dos pensamentos, e tantas outras coisas que precisam de nós. Tem que dar a cara para bater e ter a consciência de que vai levar tapas, socos e pontapés vez ou outra. Arriscar-se é uma qualidade de poucos, eu diria. Porque na maioria das vezes a gente opta por ficar quieto e aconchegado onde a segurança está garantida. É o momento em que o medíocre pode estar bem perto. A gente vive mais ou menos, ama mais ou menos, é feliz mais ou menos... E milhares de vezes ainda se coloca como vítima do mundo.
Infelizmente o mundo não tem pena de ninguém. O mundo é cão e a gente tá aqui, tentando dar um passo por vez na corda bamba. 
E sem perder o fio da meada, o que eu mais gostaria hoje é que a brisa voltasse a ser um vento forte. De que os combinados fossem mesmo levados a sério, porque assumir algumas coisas é levar em consideração o outro. O que importa não é a coisa em si, mas o que ela representa quando é feita (ou não). Por trás de todo acordo há pessoas com sua confiança e esperança de que o outro a perceba. E que nas pequenas coisas a gente vá construindo isso que a gente chama de vida.